O Messias que merecemos?

Este texto nasceu da morte de Steve Jobs. Seu corpo, teso e ressecado, nem fedia ainda quando o mundo concluíra: “lá se foi um gênio”. Um ano da morte de Steve Jobs e, com a data, vem a tsunami de homenagens. Uma torrente previsível, mas inevitável: novas biografias, reportagens sobre o que mudou no Mundo sem Jobs, sobre a produtividade da Apple sem Jobs, posteres, fotos de loucuras pelo CEO. De tudo um pouco. Do pouco, tudo em destaque.

A história, no entanto, mostra que a melhor maneira de sobreviver a tsunamis é encará-los de frente. Resolvi, portanto, não fugir ao desafio e recuperei um texto antigo, escrito há um ano. Pausa para refletir sobre essa onda. Este é o Messias que merecemos?

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A biografia, largada na estante, descansa. É o presente da moda. Fenômeno de vendas, o livro virou best-seller em menos de uma semana. Na TV, cientistas sociais e jornalistas versam sobre sua genialidade com convicção inabalável. Na internet, uma avalanche indefensável de homenagens e menções. Hordas de seguidores, em devoção bíblica, choram plantados à porta de lojas da Apple. Elegemos um novo meme, um mito pós-moderno: Steve Jobs.

Essa onipresença mórbida, todavia, revela uma questão interessante: o que é preciso para ser idolatrado? A impressão, hoje, é que basta ser famoso para isso. Jobs era, sim, um empresário que dominava sua área e compreendia seu tempo como poucos. Sabia vender e se vender. Mas não espalhou valores mais do que espalhou preços. E assim merece ser encarado: um executivo de sucesso.

O novo exemplo de ser-humano certa vez alfinetou seu concorrente Bill Gates, afirmando que “ser o homem mais rico do cemitério” não lhe interessava. “Ir para a cama à noite dizendo que fiz alguma coisa maravilhosa é o que importa.” A frase é boa, a ideia é antiga, mas a “coisa maravilhosa” perseguida por ele foi um Iphone. Talvez um Ipad.

E um Ipad, por mais sedutor que seja, não chega a ser um milagre. Ipads são compostos por elementos cancerígenas, quebram com alguma facilidade e têm um serviço de manutenção lamentável. Definitivamente, não foram concebidos para mudar o mundo, senão para preencher o mundo.

Na verdade, o problema não está em vendermos mais Apples do que maçãs. O problema é endeusarmos a atitude empresarial (o lucro), o executivo pop, como o altruísmo pós-moderno. O real problema de amar Steve Jobs é que, por trás disso, não está uma admiração por valores e pensamentos; ama-se o Ipad, o inanimado. A calça jeans com preto básico. Vive-se o apogeu do consumo pós-mortem, do qual o produto-personagem sempre sai aplaudido, sem uma vaia da plateia.

Sua genialidade, acreditem, nos emburreceu. Erros, desmandos e grosserias com funcionários são agora provas de um comando exemplar. Como acontece com os célebres cadáveres, os defeitos dissipam-se com a alma. E sendo ele agora indicador de um “caminho” redentor, viva a Apple!

A revolta não me impede de reconhecer méritos. Se seu sobrenome era trabalho, o nome poderia ser carisma. Ele, claro, teve acertos mercadologicamente imbatíveis. Contudo, seguindo este raciocínio, nada mais justo do que elevarmos à mesma categoria Rockefellers,  Fords, Gattes e Murdochs. Seus pares foram iguais em seu fim: a obsessão pelo lucro a qualquer custo. De singular no caso Jobs, só a cobertura íntima de seu definhamento e a transformação de sua imagem na de um ídolo pop.

É mesmo esta a biografia indispensável de ser lida? O objetivo a ser alcançado em vida?

O culto a Steve Jobs, apesar da intensidade, será fugaz e superficial como a cultura que ele próprio ajudou a implementar. Passará. Mais rápido do que devorar uma maçã. Mais descartável do que um produto Apple.

Cuba e os EUA*

Sempre desconfie de discursos sobre Cuba. Pendores políticos inclinam qualquer retrato factual que saia da Ilha. É com este realismo em mente, talvez, que se esteja guarnecido da melhor maneira para consumi-la em toda sua história.

O porrete está para o totalitarismo como a propaganda para a “democracia”, lembra, sempre que pode, Noam Chomsky. E a propaganda que forja seus conceitos sobre esse naco de terra caribenho esconde também agruras e desafios passados, sobre os quais se apoiam os socialistas. Continue lendo Cuba e os EUA*

O tripé socialista*

Um axioma da revolução decora a parede do principal hospital da cidade: “a melhor maneira de dizer é fazer”. A frase de José Martí, intelectual combatente da guerra que emancipou Cuba da Espanha, em 1898, coaduna-se como mantra nos corredores vermelhos.

Cuba é pobre e, asfixiada pelo embargo econômico americano, depende de muita organização e trabalho. Mas, diante de tanta dificuldade, como o regime sobrevive?, poderia se interrogar qualquer político liberal. Há, na verdade, um flagrante tripé implantado e implementado por Fidel, que sustenta solidamente o modelo: educação, saúde e segurança. Estas são verdades absolutas em Havana. Continue lendo O tripé socialista*

Cuba à exportação**

É impossível ser indiferente a Cuba. Em qualquer bate-papo, à primeira citação, fuzilam-se críticas e defesas de todo calibre. Paixões políticas turvam as mais distintas opiniões, com cores vibrantes ou escorridas. Do vermelho escarlate socialista ao azul poente neoliberal. Poucas impressões se encerram autênticas o suficiente para se retratar o dia a dia da Ilha e enquadrá-lo num porta retrato sem contornos idealistas. Arrisco aqui a minha.

Num sábado não muito distante, à meia-noite, Havana dormia à meia luz, sem ainda revelar sua alma. Dependente dos “truímos” venezuelanos de Chávez, Cuba poupa energia. Não há petróleo ou gás em seu solo. À primeira vista, à noite, o centro da capital onde vivem 2,5 milhões de pessoas parece abandonado, dando a impressão de uma cidade pós-apocalíptica. Perfeito set para “Ensaio sobre a cegueira” ou para qualquer armagedom hollywoodiano. Continue lendo Cuba à exportação**

Batman vs Quem?

Sob a máscara do Batman, está Bruce Wayne. Mas quem está por trás de Bruce Wayne? Erra quem arriscar Christian Bale, o bom ator que não conseguiu se destacar em nenhum capítulo da trilogia de Christopher Nolan, obscurecido por seus algozes Cillian Murphy (Espantalho), Heath Ledger (Coringa) e Anne Hathaway (Mulher-gato).

Bruce Wayne, na verdade, é um justiceiro bilionário. Um filantropo, empresário glorioso, admirado por seus pares e espectadores. Uma personalidade artificial, com a qual todo Rockefeller, Morgan ou Ford se entusiasmariam. Ainda mais se misturada à figura de um herói imbatível como Batman. Exemplo mais oportuno em contextos de crise do capital somente se analisarmos seu novo opositor. Continue lendo Batman vs Quem?

Olimpíadas de todos

Woroud Sawalha competiu nos 800m rasosA ONU reconhece hoje a existência de 193 países. O COI, por sua vez, tem 204 delegações filiadas a seu projeto olímpico, sendo todas elas representadas na última edição, em Londres. A conta parece não fechar, o que gera algumas dúvidas e curiosidades sobre os Jogos. Por que existem duas Chinas? Palestina é um país? E o que Porto Rico faz competindo se é um Estado Associado dos EUA?

A confusão é simples de se explicar. O COI, por filosofia, não se envolve em temas políticos (pelo menos essa é a sua versão). Portanto, governos e povos ainda em busca de autonomia ou reconhecimento, muitas vezes tratados apenas como territórios inócuos, são muito bem-vindos ao maior evento da Terra. Continue lendo Olimpíadas de todos

Quem abre a abertura?

Enquanto o sopro olímpico apagava a simbólica pira dos Jogos de Londres no domingo passado, cariocas, atentos a tudo, inspiravam entusiasmo por entrarem no centro da agenda esportiva mundial, mas não sem, ao mesmo tempo, expirar dúvidas e questionamentos sobre a nossa capacidade de realizar um evento de tamanho porte. E uma dessas primeiras interrogações é justamente sobre o batismo das Olimpíadas de 2016: quem dirigirá as festas de abertura e encerramento no Rio?

Um argumento exaustivamente repetido é que o Brasil não possui profissionais gabaritados para emocionar o mundo. Que devemos contratar um artista, um cineasta de fora, com mais expertise (com o perdão do estrangeirismo oportunista). Em sintonia com esse limitado pensamento, surgem rumores de que estamos negociando com o italiano Marco Balish, organizador das cerimônias da Eurocopa 2012 e dos Jogos de inverno de Turim, em 2006.

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Rio – 20

Duas semanas de Conferência e uma convicção: cariocas não contam até 20. Falta-nos paciência. Num momento de convergência global, de esforço humanitário, mais do que argumentos e soluções, brotam reclamações de todos os tipos e tamanhos, quase sempre asseveradas por pessoas que enxergam um só caminho: o da casa para o trabalho.

Nas redes sociais das quais faço parte, fuzilam-se críticas à Rio+20. Não pelo conteúdo da resolução final, mas porque o “trânsito está uma porcaria”, “porque o assunto é chato”. “E de quê servem os índios?”. “Ecochatos!”, bradam com autoridade. Para um raciocínio atrofiado a 140 caracteres, a lógica dos 20 parece matematicamente difícil. O próximo passo é ronronar, cara-pálida? Continue lendo Rio – 20

O que é notícia para você?

Eu nada tenho a ver com a sua vida, mas, antes de mecanicamente mudar para o Google, me dê uma chance, quero convidá-lo a uma reflexão: Quais são suas prioridades? Ganhar um milhão de reais antes dos 40 anos e gastá-lo antes dos 50; formar uma família de classe média e ver sua prole crescer até exercer, orgulhosa, a mesma profissão do pai; ou simplesmente viver um dia de cada vez, fugir do modo automático e pensar sobre os problemas que se impõem à sociedade? Continue lendo O que é notícia para você?